quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Carta para Isabela



Cara Isabella

Bem-vinda ao pavilhão de entrada do maravilhoso mundo dos adultos. Você está prestes a completar 18 anos e esse é um daqueles grandes momentos da vida. 

Passei por isso há muito tempo. Cometi um milhão de erros que, certamente, você não cometerá. Mas algo me mantém vivo até hoje. Um presente precioso que, em um dia encantado, recebi de um sábio, a beira de um certo riacho.

Ele entregou-me cinco chaves. Cada uma abre uma porta desse mundo que agora se anuncia a você. Aceite, pois, esse presente. As chaves agora são suas.

Logo na entrada desse planeta você notará um imenso jardim com um gramado verde interminável, onde as pessoas falam, falam, falam, mas são incapazes de escutar.

Sim, minha querida, um dos maiores problemas desse novo mundo é a surdez. Há um surto de deficiência auditiva que devora o planeta, destrói famílias e aniquila relações.

Todos falam, desesperadamente.  Mas, poucos são capazes de escutar.

Com essa primeira chave, ganhará o talento de ouvir.  Quando alguém tiver algo a lhe dizer basta  concentrar-se, olhar  nos olhos e ouvir com paciência.  

Ah, Isabela. As pessoas nem vão acreditar que alguém naquele jardim é capaz de escutar. Você será cercada por homens e mulheres que querem contar suas histórias, suas dores e pecados.... Apenas e tão somente por ouvi-las, será uma espécie de heroína do mundo dos adultos.

Cruzando o jardim dos surdos, avistará uma longa estrada com pessoas que andam rapidamente, se esbarrando e tropeçando nos próprios pés e pernas.

Notará que querem seguir adiante, rápido e sempre. Elas pisam umas nas outras apenas para seguir adiante.

Personagens de um vídeo-game cruel, a cada vez que solapam um companheiro de estrada, ganham uma vida e ficam mais fortes.

Por outro lado, sobrinha linda, note bem que essas pessoas enquanto avançam, tornam-se mais feias, amarguradas e tristes. Por vezes, para ganhar uma nova vida, pisam naqueles que amam porque só enxergam aquilo que querem.

Com a segunda chave, ganhará o dom da visão, com olhos de enxergar. Para usar essa chave, olhe além dos olhos, busque o coração e alcance a alma. Verá que mesmo entre os mais feios e egoístas existe algo de bom.

Com essa chave, não pisará em ninguém e o universo tratará de conspirar pela sua proteção.

Olhe para direita, logo nos primeiros quilômetros do caminho dos cegos e encontrará um lindo bosque, cheio de frutas e guloseimas, as mais saborosas de todo o planeta.

Nesse bosque, todos os sabores estão disponíveis. O doce, o salgado, o amargo, o azedo... Todos são incríveis, dependendo da quantidade, de como se misturam e do momento da degustação.

Verá que sob as árvores há pessoas felizes que aprenderam a provar de tudo com sabedoria e delicadeza.

Mas, também notará gente desesperada ao perceber  que os frutos de determinada árvore desapareceram. Não era para menos, afinal, comeram tudo no início da estação...

Essa terceira chave que agora passo às suas mãos lhe confere o poder de degustar, sentir, provar, saborear. 

Para utilizá-la basta respeitar cada árvore e entender que a vida é feita de momentos certos e da melhor hora para semear, regar, colher e, finalmente, provar...

Quando essas pessoas tristes que já provaram do melhor e do pior tentarem se aproximar, use a quarta chave que agora é sua.

Ela é poderosa porque te permite estender as mãos e tocar, acarinhar, afagar... Para esses que precisam de você, às vezes é melhor não dizer nada. Apenas oferecer um abraço, um ombro amigo, um momento de carinho.

Nenhum fruto desse bosque é tão poderoso quanto a quarta chave. É o poder do toque que agora repasso a você.

Por fim, minha querida, saiba que esse mundo, esse bosque e essa estrada, estão cheios de armadilhas. Nem sempre é possível avistá-las. Algumas estão escondidas dentro de você. Em outras terá de cair para ganhar uma lição.

Porém as mais doloridas, creia, são perceptíveis à distância. Armadas com cuidado, possuem sempre um chamariz, um atrativo com um cheiro próprio.

Com a última chave, minha linda, será capaz de farejar os perigos da vida e perceber que a maldade existe sim, por mais dolorido que seja reconhecer isso entre aqueles que, até outro dia, eram seus amigos, no planeta das crianças.

Sabe, Isabela, você tem dentro de si tudo o que precisa para explorar e descobrir o melhor desse mundo.

Tem energia para correr pelas estradas, tempo para caminhar nos gramados, saúde  para colher e provar os melhores frutos.

Apenas não esqueça que estará acompanhada nessa jornada. Que para sonhar forte é preciso sonhar junto.

Divida o melhor e descarte o pior. Use esse presente com sabedoria e, quando achar que sim, repasse para alguém que ama. Nesse dia, nos encontraremos as margens daquele certo riacho onde recebi o meu chaveiro mágico.

O lugar se chama maturidade. Te espero!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O quadro que chora....(*)


Teresa se interessa por cores e volumes. Cores fortes e contrastantes. Ela transita entre tons de vermelho, amarelo, azul, roxo e um certo verde, cada vez mais iluminado. Teresa acredita na contemporaneidade colorida e no futuro como maquinista da vida.

Invejo os otimistas como Teresa. O que seria do mundo sem eles, afinal? Acho incrível acreditar no futuro. Pra mim, este cara, o futuro,  é um velho carrancudo aguardando sempre o momento de te ferir. Queria muito conhecê-lo melhor, mas meu assunto é outro...

Teresa investiga e instiga o impulso primeiro do homem, na sua vibração de origem que,  antes de ser mental ou espiritual, é físico e conquista o mundo com sua força. O mesmo impulso que leva as mãos do observador ao contato com o seu mundo.

Quase como no espelho de Alice, eu procuro incessantemente entender o que o homem deixou ao longo da vida e como ele resgata e modifica o que passou. 

O universo de Teresa requer algum tempo para que intrusos sintam-se confortáveis e descansem o olhar. Num primeiro momento, caminhando entre formas e cores, um desavisado pode ter receio daquilo que parece desprender-se das paredes em sua direção.

Mas, esse planeta todo particular fica calmo e aconchegante depois de alguns minutos de imersão. Os volumes pedem o toque e as mãos não resistem... Deslizam por nervos expostos que criam caminhos sem começo nem fim.

Esse labirinto me remete às aulas de pintura  da minha infância e às tardes de mergulhos em tintas e telas que vivi ao lado da minha ruivinha, lambuzando os dedos, móveis e tudo mais.

Caminhando no mundo colorido de Teresa ouvi um gemido num canto escuro. Sim, ali estavam as mesmas cores e formas, entretanto, não havia alegria naquele quadrado. As formas choravam para mim. Literalmente, choravam....

Por piedade, estendi as mãos e toquei a obra que respingou no meu dedo um líquido oleoso, resultado da fusão das cores... Um marrom que o próprio quadro produziu para pintar a parede que lhe restou... Suas lágrimas....

Como os tombos da vida, aquele que ali estava foi uma mistura que tomou outro rumo. Um filho daqueles que, mesmo criado em berço esplêndido, escolhe um caminho obscuro e incomoda, destoa, provoca toda a família.

Um filho que nasceu em 1999.  Ano em que foram engarrafados os melhores vinhos produzidos no Brasil. Minha Luísa se preparava para vir ao mundo. Em março, um grande blecaute deixou 50 milhões de pessoas no escuro. O Plano Real acabou e o câmbio flutuante fez muita gente boiar. Ano de verdades, esse 1999.

Nasceu como seus irmãos de cor e força. Mas encarou a vida sob outro ângulo. Quis pular a janela daquela poesia e encontrou um mundo duro que, a cada dia, teima em destruir sua alegria.

Ahhh esse futuro que Teresa pinta... “Nada pode ser tão colorido assim”, parece nos dizer o pobre chorão, como um palhaço que desmancha a própria maquiagem ou a mulher decadente depois de horas de música e álcool.

Ali, em meio a tanta cor e magia, encontrei algo que já foi futuro e hoje é um passado que se transforma todos os dias. Uma úlcera rompeu sua carne e ameaça destruí-lo aos poucos, cruelmente e sem piedade.

Mas resta-lhe um estranho brilho que o tempo estampa em luz. Algo que lembra o quanto foi bom, mas grita: não há graça no envelhecer! Morremos um pouco a cada dia, ainda que a morte se aproxime com brilho.

Essa intersecção entre nossos mundos, o quadro que chora, roubou meu olhar. No próximo encontro, como eu, como ela, ele também será outro sujeito, com as cores do tempo, os caprichos do espaço, entre o sorriso de Teresa e suas próprias, as nossas,  lágrimas...

(*) O quadro que chora é obra da artista Teresa Viana (www.teresaviana.com.br), amiga querida....

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Salve o Corinthians !!!! (*)


Naquele Corinthians e Palmeiras ele só pensava nela. Nunca gostou de futebol. Desde muito menino, sua relação com a pelota era distante, sem a menor intimidade. E não adianta: entre meninos, quem não joga, não torce.

Ela, morena faceira, viu anos antes Sócrates encantar o mundo com seu calcanhar, com sua elegância.  Filha e irmã de corinthianos, essa alvinegra de nascença não perdia um jogo. Na faculdade,  não havia trabalho ou prova capaz de impedi-la de correr pro estádio às quartas-feiras.

Mas aquela quarta era diferente.  O rapaz metido a politizado, típico bicho-grilo-pós-ditadura, convidara a moça para um jantar. Galanteador, descobriu seu endereço e enviou flores como convite.

Ela nunca entenderia seu galanteio. Ele nunca entenderia sua verdadeira paixão.

As flores foram ajeitadas às pressas numa garrafa transformada em vaso - ela não era acostumada a manifestações daquela espécie - e as costas do cartão que acompanhava o ramalhete serviram perfeitamente para a resposta:

"mas, puxa, justo hoje? dia de derby? não dá. PS: adorei as rosas."

O garoto da entrega levou de volta a magra gorjeta e, junto, o pequeno envelope. Enquanto a garota corria de volta pro seu quarto decorado em preto e branco para a concentração de praxe.

O rapaz tinha combinado de receber um telefonema da floricultura confirmando a entrega. Feito. Foi confirmado inclusive que um bilhete tinha retornado.

"Pode ler pra mim?", pediu, encafifado. Feito também.

"Derby?", perguntou, misto de aflição e tristeza, no que o moço das flores fez questão de explicar:

"É como a gente fala quando joga Palmeiras e Corinthians. Classicaço! Verdão, eô".

Para ele, Derby era uma marca de cigarro de segunda. Sim, ele fumava, porque, na época, era bem bacana fumar. Todos os seus amigos de copo e política eram fumantes inveterados.

E que história é essa de “adorei as rosas”? Isso lá é resposta?

“Criatura alienada, essa moça”, resmungou nosso herói.

Ele ficou completamente desolado. Falaria para ela coisas sobre suas convicções de como o cancelamento da dívida externa poderia livrar o Brasil do processo inflacionário e devolver o país ao ritmo de crescimento pré-ditadura.

Também poderia comentar sobre o relançamento do Pasquim e da sua coleção particular com os originais dos anos 60. E até sobre aquele exemplar de Realidade que conseguiu em um sebo no centro da cidade.
“Perderia meu tempo”, continuou praguejando.

A certeza é a pior praga da juventude. Mal sabia ele que ali estava uma futura mulher de negócios bem-sucedida, uma apaixonada pelas formas e cores de Almodóvar, mãe exemplar e amiga das mais fiéis.

Não, nada disso fazia parte do horizonte do boboca ferido no seu intuito. Bastaria que mudasse o dia do jantar. Mas, ele preferiu mudar toda a sua vida.

Ela, por sua vez, foi ao clássico - um morno zero a zero, com direito à garoa, carro longe à beça, amendoins murchos - e, em algum momento daquele perrengue, pensou no quase-jantar. Nunca tinha olhado pro tal com olhos de cobiça: vivia reclusa em uma turma muito particular, que respirava futebol. E contava o fato de que nessa turma tinha um affair, ou quase isso, com um corinthiano da ZL - que, naquela quarta-feira, furou. Ou seja, jogo mais que morno: gelado.

Mas então o colega bicho-grilo dito politizado queria jantar com ela? Elazinha? Que assunto teriam? Que liga isso daria? Voltou pra casa tremendo de frio, mas com a cabeça quente, pensando em como seria. E pegou no sono, olhando pro vaso improvisado que acolhia as rosas vermelhas - suas preferidas, passionais como ela, como sua relação com o Corinthians e com a vida.

E assim foi. Vida que segue para os dois, com tantas mudanças, mas duas questões que permaneciam firmes: um novo convite pra jantar (que não veio) e a paixão dela pelo Timão.

Nesse momento, a vida deu mais um grande salto. Aquele solavanco do sonho universitário para a realidade do mundo dos adultos.

O rapaz substituiu a política pelos negócios. A dívida externa foi paga e ele nem notou.... A garota tornou-se empresária e o Timão, ahhh o Timão, motivo de sangue, suor e lágrimas divididas com dramas familiares, perdas, ganhos e tropeços.

Cada qual no seu caminho, encontrou o par mais próximo entre o jantar romântico e o  Pacaembu. Ele casou-se com uma bela ragatza e ela com um apaixonado por futebol.

Na nova família, o ex-bicho-grilo-politizado-atual-homem-de-negócios e, quem diria, professor exigente, mergulhou em um consenso tricolor irritante. Consenso e futebol não combinam, definitivamente.

Seu lado político reascendeu em favor da boa polêmica. Tornou-se Corinthiano apenas para provocar sogro, sogra, primos e primas.

Ela descobriu que entre quartas e domingos havia espaço para outra paixão além do futebol: o cinema. Mergulhou de cabeça nas tintas de Almodóvar e viu o tempo passar com sua filmografia.

Fale com ela, Ata-me, Tudo sobre minha mãe e Volver embalaram sonhos e reflexões. Na tela, as cores de uma juventude por vezes sombreada pela realidade preto e branca.

A vida fez com que o rapaz e a moça virassem tudo ao avesso mais de uma vez. Queriam sim reencontrar certezas e vibrar com emoções e ansiedades que aos poucos desapareceram....

De algum modo, procuravam aquela noite de quarta-feira, quando tudo poderia mudar....

E o filme da vida provocou o reencontro - quem diria - logo após um jogo do Timão, em A Pele que Habito....

Era mesmo ela, ali, na saída do cinema, com o Shopping vazio como testemunha. As covinhas e o nariz perfeito.

Sim, era ele também, com cabelos grisalhos e uma barba mal aparada. Conservou o charme pseudo intelectual de esquerda.

A torcedora mostrava orgulhosa a foto do seu menino, quase da mesma idade da pequena cuja imagem era o pano de fundo do celular do pai.

Ambos mais serenos e ponderados nem tocaram naquela noite, naquelas flores, naquele jogo. Comentaram sobre o final infeliz do filme e, claro, sobre o campeonato que vivia seus últimos momentos.

Nas redes sociais, falaram mais sobre a vida, o fim dos casamentos e suas procuras – antigas e novas.
Dessa vez, o convite veio dela:

“Vamos juntos assistir a final do campeonato? Um derby histórico !!! Podemos levar as crianças”, propõe.

O reencontro aconteceu no almoço de domingo. Novamente um empate, porém, bem mais emocionante que naquela quarta-feira.

Já no momento vídeo-game, ele respirou fundo e reuniu todas as suas forças para relançar o convite, perdido há 24 anos.

“Eu queria....”, começou...

Mas, sua filha interrompeu:

“Pai, pai podemos ir ao cinema juntos assistir Harry Potter? Diz que sim, vai...  Aí, depois, vamos comer um hambúrguer....”

A moça ansiosa, ainda insistiu:

“Você dizia....”

E ele respondeu:

“Dizia que o jogo foi incrível e precisamos levar esses dois ao cinema. Quando é bom pra você? Quarta-feira?”

(*) Texto escrito em parceria com a jornalista Renata Ruffato... Revisitamos o passado brincando com a ficção..

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Despedida....


Conheci este cara aos 12 anos. Fátima, uma linda ruiva – minha vida está marcada por elas – apresentou-me a ele. Ela era muuitoo mais velha, tinha 15, quase uma mulher.  Seu aval foi importante para o início dessa amizade. Logo no primeiro contato, nos entendemos bem, parecíamos íntimos.

Amigos de verdade quando chegam são assim. Não têm muito pudor. Naquela época, eu era o único pré-adolescente da turma que me relacionava com ele. Um baita status para um pirralho.

Acabara de chegar de Santo André, cidade da região do ABC com hábitos provincianos e jeitão de interior desenvolvido.  Ali meu amigo era bem pouco conhecido e, para ser sincero, não gozava de boa fama.

Quando cheguei em Moema, havia um novo mundo a descobrir. Um mundo com atrações incríveis, perigos e aventuras. O maravilhoso mundo do Shopping Center. Conheci todos eles naqueles anos 80.

Ibirapuera, quadrado e fácil de localizar as lojas, tinha atrações como as Lojas Americanas, alvo fácil para pequenos furtos de balas e chicletes.  No último piso, o Pastel&Coke, que servia uma maravilha de banana com um balde de coca-cola.

Matava as aulas do velho e bom Instituto de Ensino Tabajara e seguia para o Shopping, com meu parceiro e amigo inseparável. Quando não encontrava o chapa, era fácil localizá-lo entre amigos comuns.

Assim também acontecia no Morumbi, com sua pista de patinação no gelo e no Eldorado e aquele Boulevard vintage, na época , algo muito sofisticado.

Meu amigo também estava comigo nos parques,  onde levei as primeiras namoradas para beijar recostado em árvores ou à beira do lago.

Seguimos juntos, ginásio a fora, colegial e tudo mais. Esse cara, ousado, invadia a escola e chegou a render advertências e suspensões que escondi habilmente dos meus pais.

Quando entrei na faculdade, ele já estava entre os professores. Tinha um jeitão intelectual, descolado e charmoso. Homem feito, freqüentava as melhores rodas e sempre me levava com ele.

Mais tarde, formado, fui seu “foca” em redações  de rádio como Jovem Pan, Trianon e jornais como Folha da Tarde e Shopping News. Nos momentos mais tensos foi ele que me amparou, sempre com uma boa idéia e uma palavra calmante.

Descobri ao lado dele minha primeira paixão. Me aconselhei com o amigo:

- Vai que, se der errado, estarei por aqui – disse ele.

Dito e feito. Quebrei a cara. E lá estava meu amigo a me consolar.

Confiava tanto nesse sujeito que, quando não sabia como me aproximar de uma mulher, ele entrava no circuito e resolvia o problema.

Aos 26 anos, me casei e ele foi padrinho. Estava comigo na cerimônia e na festa até o final. Foi nesse momento que nossa amizade sofreu o seu primeiro abalo.

Começava a circular por aí que aquele amigo de todas as horas tinha um lado ruim, marginal. Amigos comuns passaram a afastar-se do sujeito e bastava que estivesse com ele para que alguém olhasse torto e até fizesse um comentário maldoso.

Era o início da decadência. Vi meu amigo publicamente enxotado, com fotos e frases contrárias por todos os lados.

Ele foi personagem de páginas policiais, documentários e longas matérias nas revistas semanais. Só um grupo muito restrito permaneceu ao seu lado nesse momento difícil.

Resisti bravamente, mas tudo tem um limite. Quando começaram a chamá-lo de assassino, tive que por um fim em nossa amizade.

Minha esposa anunciava a gravidez e, nessa nova condição, por mais que gostasse do meu amigo, não poderia me dar ao luxo de ter alguém assim dentro de casa.

Surge a minha segunda ruiva. Luísa não o conheceu até os 9 anos. Sabia seu nome, mas não queria nem ouvir falar no cara.

Um dia, em uma mesa de bar, ele chegou cabisbaixo e choroso. Confessou as bobagens da vida e pediu um lugar, um papo.  Não consegui negar.

Passamos a nos encontrar mais nos finais de semana, depois almoços, happy hours e, quando menos esperava, renovamos essa amizade.

Nos últimos três anos, tentei recolocar o sujeito no meu convívio social, nas minhas rodas, sempre em vão. Quando ele chegava, tinha que sair de onde estava porque, nem eu, nem ele, nos sentíamos a vontade para lidar com olhares de reprovação.

Na manhã deste 30 de novembro, ele esteve em minha casa para uma despedida. Melancólico, chegou cedo e disse que não me encontraria mais. Antes, no entanto, lembramos de aventuras e desventuras que curtimos juntos por esses 19 anos, quase metade da minha vida.

Ele se foi...

Parei de fumar e perdi o maior companheiro que já tive. Do ócio criativo à melancolia, passando por comemorações e perdas, nascimentos e mortes, ele sempre esteve ao meu alcance.

Como tudo na vida termina, chegou a hora de dar adeus ao companheiro. Só os fumantes sabem porque é tão difícil deixar o cigarro.

Como diz a canção “o cigarro, o café e um trago – tudo isso não é vício. São companheiros da solidão e a gente ainda paga por isso”.

A despeito de todo o mal que “meu amigo” causou, a cada cerveja, a cada alegria, a cada tristeza, ele será lembrado.

Mais fácil seria, unir-me ao coro de linchamento. Não seria justo, nem verdadeiro.

Que vá em paz!