sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Memórias....



A minha memória é uma caixa de imagens. Os fatos, organizados sistematicamente, vão perdendo a seqüência e a conexão, ao passo em que o cérebro envelhece... Restam as imagens, que se tornam símbolos e ganham significados próprios e perenes...
A primeira e mais distante imagem que tenho dele remonta aos meus quatro ou cinco anos. Ele chegava em casa, após o trabalho e eu saia correndo para me jogar em seu colo. No caminho, um grito de guerra: “pô, pô, pô, pô, pô, pô, pô..... paiiiiiiii”. Quase inevitavelmente, ele dava dois passos para trás e, até hoje, não sei como nunca levei o velho ao chão.
Aquela era uma forma de festejar o encontro ou o reencontro diário. Meninos, como cachorros, se emocionam ao rever, mesmo poucas horas depois de ver... e festejam, comemoram...
Outra brincadeira deliciosa, que ele repetiu com minha filha e sobrinhos, era a de botinha. Agarrado à sua perna, seguia pela casa, como se fosse uma bota... Um peso e tanto!
Também lembro-me bem quando ele me levava para a escola, a bordo de carros grandes e lindos (um dodge, um landau, um galaxy....). Seguíamos conversando sobre a vida... Nunca me tratou como criança, com aquela atenção de mentira... Realmente, estava atento a tudo o que eu dizia e foi assim até a nossa despedida.
Também lembro do pai cheio de dengos, um chamego para cada um que ele amava... O pão de queijo da Larissa, o café da Luciana, a escolinha da Luísa, os desenhos do Tiago. A molecada disputava aquele colo com direito a brigas e discussões.
Outra lembrança boa era do meu velho na minha casa. “Como é gostoso aqui, filhão...” , ele dizia. Sentia-se realmente feliz no meu canto. Menos pela casa, talvez, mais pela tranqüilidade de ver que o filho mais novo construiu seu pedaço de chão.
Na minha casa, passou um natal lindo ao meu lado. Na véspera, fomos ao mercadão, para mais uma imagem gostosa. Meu pai caminhava pelos corredores do mercado e todos ali o tratavam pelo apelido que ganhara quando comercializava carne naquelas bancas. Era o ‘pé de chumbo’ – alcunha típica para aqueles que dirigiam sem calcular muito bem o momento de frear...
Meu pai era um sujeito engraçado e cheio de manias. Acreditava que tangerina dava gripe e que pasta de dente era bom para assentar fios rebeldes do cabelo. Acreditava até a página três, porque acabava rindo de tudo isso...
Recordo-me bem, muito bem do seu sorriso. Mas não tenho registros do meu pai chorando... Tristeza ou alegria de fazer chorar eram sentimentos que ele guardava longe dos meus olhos.
Tenho outras lembranças duras, dos últimos dias da sua vida. Foram poucos e rápidos, como ele sempre quis. Mas vivemos cada um desses dias, dessas horas, como se fossem anos. E, mesmo sofrendo, ele não perdeu a ternura...
Após uma sessão de acupuntura, disse ao terapeuta que dias antes de estar ali carregava sacos de farinha nas costas. Pobre pai... Havia mais de 50 anos que ele não sabia o que era um saco de farinha, exceção àqueles que compramos no supermercado. Mas, não há maior surpresa que o envelhecimento, como diz Philip Root.
Também recordo-me da expressão de medo que tomou o seu rosto quando a médica descuidada falou sobre o aneurisma que o levaria a morte. Meu pai tinha um verdadeiro pavor diante do sofrimento....
Me virei em oito naqueles dias, mas evitei ficar ao seu lado... Queria que tudo ficasse bem e pudéssemos fazer outro churrasco para rir daqueles momentos.
Na verdade, não queria aquela lembrança, aquela imagem do pai doente. Mas, duas últimas cenas ainda marcariam nossa história.
A primeira mistura o bom e o ruim desses dias. Era, meu pai entrando na ambulância com cara de menino que tomava ônibus pela primeira vez. Ele realmente se divertiu no trajeto, como conta minha mãe, que o acompanhou. Eu não sabia mas, naquele momento, presenciava seu último sorriso.
Alimentamos esperanças tolas em uma cirurgia que nunca teria um bom final...
Depois, o filme ganha um corte brusco, os médicos nos deixando claro que não conseguiram nada e talvez, mais tarde, partiriam para uma tentativa dura e invasiva... Ele não queria isso e se deixou partir com suavidade, creio eu...
Voltei ao hospital com alguma esperança em vê-lo vivo, mas foi uma maca que vi deixando a UTI, com um corpo coberto. O médico gritou mandando que os enfermeiros retornassem e me abraçou dando a notícia.
Entre o sorriso da ambulância e aquela maca fria e sem piedade, permanecem essas duas imagens em meu álbum junto com tantas outras, lindas, doces e saudáveis...
De alguma forma, elas me dizem que existe alegria e diversão até nas horas mais críticas. Também me ensinam que, por vezes, a vida é dura e implacável para que aceitemos o inaceitável....
Sei que o Valtão está bem e sinto a presença dele nos bons momentos da minha vida, da minha filha e de toda a minha família. Procuro recuperar, na minha caixinha particular, as melhores fotos e filmes.
Mas, vez ou outra, é inevitável resgatar as cenas mais duras e emprestar novos significados aos velhos símbolos...

Um comentário:

  1. Texto cheio de imagens e memórias... como um filho olha para o pai. Parabéns!!!

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